sexta-feira, 27 de junho de 2008

O sal, a luz, o grão, o fermento e o adubo

Metáforas são ferramentas tremendas na comunicação.

Elas permitem que a gente compreenda princípios, situações, realidades e eventos de uma maneira complexa e profunda, sem que seja necessário o uso de muitas palavras.

Outra característica da metáfora é sua capacidade de manter escondidos alguns significados ou de ceder dubiedade a uma situação a quem ouve a metáfora e a analisa a partir de preconceitos, idéias prontas ou que já estabeleceu juízo de valores sobre uma determinada situação. Assim, normalmente, o sentido da metáfora escapa ao preconceituoso e se abre como o dia para quem está disposto a ouvir.

No Brasil, na minha opinião, o mestre da metáfora é o Chico Buarque. Suas letras de música durante a ditadura são obras de arte da metáfora, como em “Apesar de Você”, “Geni”, e “Cálice”, que discutiam temas sérios como a classe dominante, a constituição e a censura, que mandavam mensagens cifradas, esperança e análises políticas recebidas por quem ouvia e que passavam despercebidas por censores preconceituosos.

O mestre maior da metáfora foi Jesus. Suas parábolas e máximas desafiavam líderes políticos e religiosos e se tornaram revelações definidoras da vida e da prática da comunidade cristã ao longo dos séculos.

Para definir o Reino de Deus ele comparou-o a quatro coisas interessantes, como consta no título acima.

Muitas vezes a gente não percebe que essas metáforas dão dicas de como poderia ser nossa atuação como agentes do Reino. E de tal forma que basta ver o que a igreja anda fazendo por ai: Placas e mais placas, TV, rádio, shows enormes, comícios, partidos políticos, atuação junto ao poder, lideranças messiânicas, publicidade e mercado. Se já era ruim há alguns anos, a coisa tem se tornado insuportável ultimamente. Bastava uma leitura na Bíblia e as coisas poderiam ser diferentes.

Assim como Vinícius de Moraes, parece que a Jesus lhe agradavam os diminutivos: Abba, Talita, cordeirinhos. E assim ele fez com o Reino ao compará-lo a um grão de mostarda. Pequeno, insignificante, mas com todo o potencial de um grande arbusto, guardado no DNA daquela pequena porção de vida.

Além de ser pequeno, ele chamou a atenção para o fato de que deveríamos ser imperceptíveis. Ele usou para isso a imagem da luz e do sal, apesar de todas as exegeses complicadas, ele fala do poder de dar sabor e da capacidade de enxergar.

O sal e a luz têm em comum um fato: só são bons quando não se percebem.

Quando você consegue enxergar sal numa comida, certamente ela não poderá ser comida, ficará intragável e fará muito mal a quem tentar engolir. Quando você chega a perceber a luz, ela, que é necessária à capacidade de enxergar, te ofusca e cega.

Apesar disso ele disse que éramos o sal da terra e a luz do mundo.

Terra aqui se referindo à porção onde vivemos, ao lugar onde estamos, e mundo como o Cosmos criado. A visão de que o mundo está perdido, que as coisas são ruins e que nós temos que ir lá e impor uma outra maneira de ser é o contrário do que se vê em Jesus nestas metáforas.

Imagine uma salada, ou um ingrediente qualquer. Basta uma pitada de sal, bem pequena, e os sabores são realçados. Assim é o lugar onde a gente vive. Deus o criou cheio de potencial de sabores e vida, mas nossa mesmice e rotina, e nossa submissão apática os tornam insosso e sem graça. Bastaria uma pitada de nossa intervenção positiva para que se realçassem as qualidades de um lugar ou de uma situação. A isto ele se referia: À discrição com a qual nossa atuação como cristãos pode trazer vida. Para tanto, basta uma pitada.

E a luz? Ele fala de um candeeiro, de uma pequena fonte que ilumina e nos permite ver, enxergar, e acima de tudo permite a quem vê, elogiar o criador de tudo. Basta uma luzinha, para ver os detalhes em meio à escuridão. O excesso de luz, o holofote, torna muito desagradável o ambiente e remove a possibilidade de apreciar. Pouca luz, deixa-nos no escuro, muita luz, nos cega. O equilíbrio da atuação discreta, mostra a beleza.

Assim somos nós. Cada vez que a igreja chama atenção para si ou para seus líderes, diminui seu efeito potencial a ponto de estragar completamente, ou ofuscar ao chamar para si uma glória que deveria ser dirigida a Deus.

Por fim ele diz que o reino é como fermento. O grande barato do fermento é que, uma vez na massa, você não o vê mais, não pode identificá-lo, mas sua presença é indubitável e seus efeitos visíveis. Mas definitivamente você não pode separar nem ver o fermento.

Um modelo de religiosidade cristã como esse que experimentamos, com todos os excessos, de luz, de sal, de grandes projetos que parecem uma semente de abacate, e de identificação clara, são o oposto da proposta da vida apresentada por Jesus.

A igreja é percebida muito facilmente: placas em cada esquina, disputa de torcidas (sou católico, sou evangélico, sou sei-lá-o-que, adesivos dos mais exóticos aos mais engraçadinhos, livrarias, out-doors...) e o mundo cada vez mais sem sabor, feio, poluído e cheio de guerra.

Me chama a atenção que na América Latina, o país que tem 70% de população evangélica, a Guatemala, seja exatamente o país mais perigoso para se trafegar nas estradas pelo excesso de assaltos e corrupção e um dos mais atrasados em termos sociais, e conservador em termos políticos. Que a forte presença católica e protestante no Brasil, com suas respectivas torcidas organizadas, não faça deste país nada diferente ou a mais, e que seja um dos mais corruptos do mundo. E que exatamente a forte presença religiosa conservadora cristã americana é quem tem apoiado um homem de sangue e morte como George Bush, causador e perpetuador de males indescritíveis nos últimos 8 anos.

Salgamos demais, ofuscamos demais, aparecemos demais, temos projetos grandes demais como sementes de abacate e podemos ser encontrados na forma de tabletes ou secos em caixinhas, fermento, de fato, mas que não leveda nada por não estar em contato com a massa.

Eu finalizaria usando uma metáfora minha. Costumo dizer que cristãos são como esterco: quando juntos fedem, quando espalhados adubam.

Sei que não é das melhores, pois não sou nem o Chico, nem muito menos tão hábil quanto Jesus, mas que está na hora de a gente pensar diferente e voltar a sumir ai no mundo para que a glória seja dele e não nossa... ah, isso está.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Algumas coisas sobre aprender

Estou escrevendo da parte das Índias ocidentais que fica entre o Império e o cone sul, aqui numa Costa, Rica, cheia de verde e gente. Não sei como será meu acesso à rede aqui nestas bandas, por isso gostaria de recomendar que se eu sumir uns dias talvez lhe ocorresse dar uma relida em algumas postagens anteriores, além desta que estou começando agora. Se quiser fazer uma reflexão sobre a arrogância e a falta de capacidade de se perceber você pode ler FAREMOS TUDO FIELMENTE ; ou se quiser saber algo sobre meio ambiente pode ler BONIFACIO E O MEIO AMBIENTE ; ou pode dar uma passeada pelos últimas postagens ai ao lado.

Hoje eu queria fazer uma breve reflexão sobre alguns aspectos da aprendizagem.Estou aqui convidado para um evento onde sou o palestrante de fora. E estou com minha velha posição de não preparar nada antes de chegar, mas de buscar estar o mais preparado possível para ouvir às pessoas. E isso causa um tremendo mal-estar nos meus amigos que tanto gostam de power points e notas prévias, quando me proponho a viajar tanto para perguntar : E vocês... o que querem saber?
Isso porque estou aqui para partilhar um pouco do que tenho aprendido enquanto aprendo de outras experiências. E, contra o senso comum, aprender não é o o eterno acumular de coisas novas, uma sobre a outra, mas sim a constante construção de sínteses que demandam a disposição para duas tarefas: Aprender o novo e, humildemente, desaprender aquilo que se percebe parcial, equivocado e que nos tenha levado ou a becos sem saída ou a dificuldades desnecessárias em nossa vida.A habilidade de aprender o novo depende da humildade para desaprender algumas coisas equivocadas.Mas ainda existe outro problema: após aprender e sintetizar novos conhecimentos, corremos um novo risco, o de deixar esse novo saber apodrecer dentro de nós. Aquilo que é aprendido se conserva de uma maneira própria ao conhecimento e à sabedoria: o que se tem só se mantém se for intensamente usado, ao contrário de outras coisas que se conservam pelo pouco uso, como dinheiro ou cristais.
Para isso só existe uma coisa a ser feita, uma única maneira de usar o que se sabe. E quem nos dá a dica é Cora Coralina "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina". Somente alguém como ela, simples e profundamente sábia (aliás se nunca leu uma de suas poesias desfrute algumas clicando aqui) para trocar a via fácil de ensinar pela estreita caminhada do partilhar. Porque o transferir aqui não tem o sentido de depositar, é assim como quem tem algo e o divide com o outro como quem transfere um direito que antes era só seu, como quem dá a quem chega em casa a chave da porta.
Me chamaram aqui para ensinar... espero não fazer isso... mas simplesmente aprender e ser sábio o suficiente para compartilhar o pouco do pouco que sei.
Deixo a todos com um poema de Cora, sobre a vida e o aprendizado dela.





Cora Coralina (Poemas dos Becos de Goiás )

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces: Positiva e negativa


O passado foi duro mas deixou o seu legado


Saber viver é a grande sabedoria


Que eu possa dignificar Minha condição de mulher,


Aceitar suas limitações


E me fazer pedra de segurança dos valores que vão desmoronando.


Nasci em tempos rudes


Aceitei contradições lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo


Aprendi a viver.

domingo, 15 de junho de 2008

O QUE PODE NOS DAR ESPERANÇA?


O livro de Lamentações de Jeremias possui uma frase que sempre me marcou muito "lembro-me também do que pode me dar esperança"(Lam. 3:19). No seu contexto ele fala do que lhe desanima: lembro-me de minha aflição, do meu delírio, da minha amargura e do meu pesar, lembro-me disso tudo e minha alma desfalece.

A memória é uma espécie de chave da nossa situação emocional. E naturalmente somos mantidos estáveis por um fato normal que é a capacidade de se lembrar mais das coisas boas do que das ruins que passamos em determinados períodos da vida, de forma que ao olhar para o passado a maioria de nós guarda as lembranças boas de maneira mais forte que as desagradáveis. Este é um mecanismo conhecido e reconhecido por todos.

O que Jeremias diz neste texto é que apesar de viver uma situação difícil ele lança mão de uma estratégia para se manter à superfície enquanto tantos afundam em depressão: O bom uso da memória. Ele não propõe uma absurda negação de problemas, que ele reconhece e admite, mas a palavra "também" aparece ai como chave. Em meio a fluxos de pensamentos que lhe desanimam e deprimem, vemos esse homem usar a palavra chave: também.

Quem tentar, romanticamente, negar a existências de problemas, ou fingir que não os vive, terá dificuldades em se manter cheio de esperança por muito tempo, logo esta será substituída por mais depressão. Mas quem, diante de problemas ou situações deprimentes aprende a contrabalança-las com a partícula 'também', iniciará um diálogo entre as duas realidades, que não só trará esperança, mas muito provavelmente soluções.

O uso da memória de maneira a nos lembrar do que pode dar esperança é uma estratégia ao alcance de qualquer um.

Vivemos a moda das ondas de depressão. Hoje, em uma escala muito superior ao passado, os quadros de depressão são comuns e medicados com freqüência, como forma de tentativa de superação. Não somente aumenta a proporção de casos, mas estes atingem faixas de idade cada vez mais amplas, não sendo incomum o absurdo fato de termos crianças deprimidas.

E qual a razão disso?

Há alguns anos atrás, minha esposa, em meio a uma crise que nos abalou profundamente, teve o texto de Romanos 5 como algo que a sustentou. Um dia ela me mostrou o texto e este passou a ser um marco na minha trajetória de vida, e com certeza da dela. O texto aponta para um convite: fiquem de pé e exultem na esperança. Muito semelhante ao convite do Salmo 100. Um convite não a uma exaltação alienada, mas baseada em uma razão concreta: termos sido recebidos com portas abertas, termos livre acesso a Deus, havermos sido feitos por Ele e escolhidos como seu povo, e ter sido trazidos até onde fomos por sua graça. E isso é motivo para pular, ficar em pé e gritar em adoração.

Mas ai ele fala uma coisa totalmente fora de moda em nosso tempo: Façam a mesma coisa quando estiverem totalmente cercados de problemas por todos os lados, porque nós sabemos como os problemas podem desenvolver uma apaixonada paciência em nós, e como a paciência forja em nós a virtude da têmpera do aço, mantendo-nos alertas para o que Deus fará a seguir. E em alerta expectativa como essa, nós nunca seremos decepcionados, bem ao contrário – nós prepararemos reservatórios que não serão suficientes para conter tudo o que Deus generosamente preparou para nós pelo seu Espírito Santo.

Filhos da sociedade da anestesia, perdemos, e não damos a nossos filhos, a oportunidade de acolher o sofrimento como parte da vida. Retiramos limites e restrições, facilitamos e gostamos que nos facilitem tudo, removemos as tensões, damos todas as condições possíveis, fugimos do sofrimento, buscamos a tranqüilidade, nos adaptamos ao mundo, não nos submetemos a longos períodos de espera. E, ao contrário do que se poderia esperar, não vemos pessoas mais felizes, mas cada dia mais pessoas deprimidas.

Temos tudo, protegemo-nos de tudo para não sofrer, e com isso geramos um estado geral de desesperança e apatia.

Encarar o sofrimento e a angústia como parte da vida, e não como exceção a ela, forja em nós uma tremenda expectativa para saber o que Deus fará a seguir, sentimento também conhecido como ESPERANÇA.

O povo de Israel, ao ser feito povo de Deus, passou pela opressão do Egito, pela angústia diante do mar, e depois por um deserto sem fim. Foi daí que surgiu a esperança, foi no fim dele que perceberam que um milagre havia acontecido debaixo de seus pés: Suas sandálias duraram 40 anos. Foi na dureza de caminhar no deserto e de passar por tudo aquilo que surgiu a expectativa de sempre ver qual vai ser a próxima boa surpresa de Deus – fosse água da rocha, maná ou a cura de doenças. A confiança nele e a capacidade de passar por tudo que passou o povo judeu, veio destas vivências e não de uma vida cômoda, segura, protegida e reservada de passar dificuldades.

Só quem anda no deserto, e tem coragem para seguir em frente vai poder viver a experiência de sandálias que nunca se desgastam. Quem evitar andar para não gastar as sandálias, não as gastará, mas não as verá durar milagrosamente, nem chegará a lugar nenhum

sábado, 14 de junho de 2008

Uma velha arte







A que ponto chegamos....

Recentemente comecei a sentir que chegou a hora de me envolver em mais um aspecto do resgate da nossa perdida humanização. Antes de contar qual é, acho que seria bom relatar por quê.

Eu creio, e creio mesmo, que o propósito de Deus para o mundo é o seu resgate. Mas as palavras que a gente usa para definir este propósito são não só limitadas como muitas vezes confusas. Quando se fala em “resgate” ou em “salvação” a primeira imagem que surge na cabeça é a de um bote salva-vidas, é retirar alguém de algum lugar e colocá-lo a salvo.

São outros aspectos das palavras os que na verdade guardam o sentido do que se apresenta como plano de Deus. O sentido de ambas as palavras está mais próximo do conceito de restauração. A batida palavra salvação, vem do grego “soter” que vai dar origem à nossa palavra SUTURA, ou seja remendar, ou salvar, ou resgatar algo que se encontra danificado.

Deus nos criou à sua imagem, no grego EICON, ou ícone. Somos e continuaremos a ser ícones de Deus, seus símbolos nessa terra, que o representam aqui. Entretanto somos ícones quebrados, danificados por nossa própria escolha de sermos e agirmos como se fossemos pequenos deuses que determinam autoritariamente o que é melhor para nós e para qualquer um que seja mais fraco que a gente, seja bicho, gente, planta ou estrutura. E com isso seguimos danificando tudo.

O propósito de Deus não é vir aqui, escolher uma meia dúzia e levar embora sei lá eu para onde. Não, o propósito de Deus é retomar seu domínio, restaurar a ordem, sanar a terra, curar as feridas, enxugar as lágrimas e garantir a emergência da vida, e vida em plenitude. Mas Deus não veio fazer isso como um poder equivalente ao mal presente, e usando as mesmas armas, mas lançando mão do convite, do convencimento, e da implantação de células subversivas desta ordem necrófila na qual vivemos onde o ser humano oprime a toda a criação e em especial a outros seres humanos, o que torna a própria opressão insustentável. E isso porque seu poder é infinitamente superior.

E como agir nessa subversão que aguarda a volta do Rei? Vivendo em duas dimensões: Como deveria ter sido e como deverá ser.

Tudo isso se traduz em ações muito simples e corriqueiras, que nos levam a pensar como compramos, criamos filhos, resolvemos problemas, relacionamos com o ambiente e com o próximo, anunciando como é o Reino de nosso Deus, até que Ele venha.

Eu penso que a simplificação disso ao discurso, ao proselitismo, a usos e costumes e a uma propagação de um evangelho de bote salva-vidas, que se tira alguém de algum lugar é da realidade, não só mancha como impede que o mundo veja a realidade de um Deus amoroso, bom e fiel em sua promessa e intenção de ter-nos com Ele.

Tenho me envolvido em várias coisas nos últimos anos, comprometido com essa restauração: ficar amigo de mendigos, cuidar de adolescentes, estimular o empreendedorismo e a iniciativa pessoal, fomentar negócios, andar de bicicleta, criar minhocas em apartamento, estimular o consumo orgânico, reduzir ou eliminar o uso de plásticos, reciclagem, permacultura, amizade, artes e artesanato, cuidar dos filhos e discutir sobre a educação de filhos. E o que mais me espanta é que essas e outras iniciativas são consideradas utópicas, irrealistas e sonhadoras.

Ora... a que ponto chegamos...

Olhando bem - olha com cuidado - eu só faço aquilo que era comum à sua avó fazer! Mais nada.

Agora estou iniciando um outro movimento: O movimento de vizinhança (clique aqui e acesse o site). E para fazer o quê? Falar com o vizinho, andar na rua, restaurar a confiança, obter silêncio, calma e paz, ter um ambiente seguro para crianças.

Antes que você me chame de sonhador... pense um pouquinho em como vai se individualizando a nossa vida, como por trás deste mito de privacidade a gente se desumaniza, e como a risadinha de quem olha para isso e pensa ser coisa de maluco ou de quem não tem o que fazer (aliás tenho, e muito) esconde a perda da humanidade que reside em cada um como imagem e semelhança de Deus, revela o desbotamento o ícone, a perda do brilho e da chama, e convida a cada um à busca da restauração da vida perdida em tantas camadas de poeira e graxa por anos de individualismo e prática de dirigir a própria vida de seu próprio jeito.

Segundo a Bíblia “a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus” (Rom 8:19)... e você ai quietinho sem se manifestar.

Salvar e resgatar é restaurar aquilo que se havia perdido, para isso veio Jesus. E o que se perdeu? Nossa humanidade, nossa capacidade de conviver, nossa igualdade e nossa inocência. Com isto se perdeu um jardim, hoje transformado em um lixão.

Minha esperança reside em que o lixão de vida que se tem não terá a palavra final, mas sim a graça do Jardim. Até lá tenho uma escolha: ou me acostumo com o lixão, ou anuncio com minha vida a Vida que virá.

Não é inventar ou fazer nada novo. É somente reaprender uma velha arte natural recentemente esquecida: viver em comunidade, em paz com todos, cuidar da criação e ousar dizer não para os frutos proibidos, diariamente ofertados para nos darem a sensação de que somos deuses.

A que ponto chegamos...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Melhor é serem dois

Hoje vou falar de outro amigo meu. Este é um novo amigo e um amigo mais novo. Quando olho para ele, vejo como o que é importante se esconde em meio ao dia-a-dia, e como o extraordinário se revela naquilo que parece absolutamente ordinário.

Esse meu novo amigo, Patrício, tem o mesmo nome de um de meus heróis - Patrício, da Irlanda – um homem que fazia tudo ao contrário dos outros e por ir na contra-mão é reputado como sendo a alavanca que salvou o ocidente (clique aqui para saber mais).

Mas hoje vou apontar para outra característica do Patrício.

Há mais de 25 anos eu e minha esposa escolhemos um texto bíblico para marcar nossas vidas: "Melhor é serem dois do que um, porque maior é a recompensa do esforço. Se um cair, o outro levanta o seu companheiro. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar" Eclesiastes 4:9-10.

O Patrício é um dos promotores do movimento Bicicletada. Uma iniciativa libertária de mobilidade humana, que questiona a loucura da sociedade do automóvel. Ele é super comprometido, e ao mesmo tempo uma pessoa agradável e delicada na relação com os outros (como eu preciso aprender mais sobre isso...). Ele e sua esposa são ciclistas do cotidiano, e levam muito a sério cada atitude de sua vida. E até onde eu saiba, pois não fico preocupado com isso, a gente não compartilha da mesma fé.

Ele trabalha em uma grande empresa do Sul das Índias Ocidentais, em uma área técnica de responsabilidade. Como promotor de um estilo de vida sustentável, ele estimula seus companheiros ao uso da bicicleta. Após convencer alguém é comum ver o Patrício sair de casa mais cedo, ir até a casa da pessoa e acompanha-la no trajeto – normalmente desenhado por ele no Google Maps – mostrando à pessoa como chegar com segurança e animando quem vai junto. Sacrificando seu próprio ritmo, e seu trajeto pessoal, ele sai da rota, acompanha e dá o que ele chama de "mãozinha amiga". Isso somente pelo bem do outro e do mundo onde vive.

Ontem, eu e ele, com nossos 20 anos de diferença, fomos a uma entrevista numa rede local de TV. As Tvs aqui nas Índias Ocidentais ficam na parte mais alta da cidade, uma subida que não acaba. Fomos de bicicleta. Mesmo que eu me esforce, não tenho mais a energia dos vinte anos. E subir aquele aclive demanda um esforço razoável. Já para lá do meio, subindo e animado pela conversa, eu estava bem cansado, quando senti uma mão nas minhas costas. Era o Patrício, sorrindo, simplesmente encostando sua mão nas minhas costas e dizendo "é a mãozinha amiga, não precisa nem empurrar, é só um estímulo". E lá fomos nós até o cume.

Eu falei que não sei se temos ou não a mesma fé, mas uma coisa sei sobre o Patrício. Ele tem me feito pensar de modo mais profundo na minha e me faz lembrar que trabalhamos para o mesmo chefe.

Como eu disse, ele nem sabe um monte de coisas, mas uma delas fica aqui: que sem saber, e fazendo tudo ao contrário da lógica, ele me fez lembrar do texto da minha vida, porque ao invés de falar, ele demonstra com atitude que sem dúvida, "melhor é serem dois".

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Trabalho, O emprego, A atividade e O descanso

Freqüentemente me vejo envolvido em conversas que abordam o tema do trabalho. Nestas conversas, por vezes o assunto recai sobre os conceitos de escravidão, liberdade, mudança. Várias vezes comparando as realidades do mundo Romano e do antigo Egito à nossa. Esse assunto deve vir a surgirem um futuro post, por hora gostaria de me ater às origens do problema.

Saiba a maioria das pessoas ou não, vivemos em um mundo tipo MATRIX, dentro de um construto artificial baseado em mitos. Os mitos são muitos, como os do desenvolvimento, educação, segurança, garantias, certezas, entre tantos outros. Na sua maioria os mitos surgem estimulados pela submissão de nossa sociedade ao pensamento greco romano idealizado, idealista e ideológico (no sentido que Marx e Engels deram à palavra em "A ideologia Alemã"), infelizmente muitíssimo exacerbado pelo tipo de cristianismo construído no ocidente, e levado às últimas conseqüências em seu formato moderno, no qual, como disse em um artigo publicado há algum tempo pela revista de educação da metodista de São Paulo "Platão engoliu Jesus" (Educação & Linguagem, nº 16).

No entanto, é devido ao fato de esta deglutição ser a de alguém não digerível que persisto esperançoso, pois de dentro das entranhas do sistema, pode surgir, e surge insistentemente, a vitória da Vida, cheia de Verdade e que nos aponta um Caminho.

Por hoje gostaria de tecer alguns comentários sobre o tema do título.

Todo mundo diz que trabalha, e se sente com toda a certeza fazendo-o. Então eu normalmente faço uma pergunta que deixa a maioria sem resposta ou com uma resposta reveladora: O que é trabalho?

A essa pergunta me respondem coisas como: O que eu faço para ganhar dinheiro; o que me dá prazer, o que preciso fazer para suprir minhas necessidades e por ai vai.

Normalmente, após respostas deste tipo faço outra pergunta: Se é assim, como isso encaixa com a definição de um Deus que trabalha? Se isso é trabalho, será que Deus trabalha para suprir suas necessidades, para ganhar dinheiro, ou para ter prazer? Se não encaixa ai, talvez deva haver outra definição.

A conversa segue adiante, com a inevitável reflexão sobre o descanso. Pois se isso é trabalho, descanso deve ser repor energias, ou cessar o prazer, ou estar satisfeito. De fato, uma complicação se entrar a figura de Deus, nesse caso então um ser que seria nossa imagem e semelhança.

A definição que uso é o trabalho como a interferência de um ser sobre a realidade para transformá-la. Neste caso, podemos ver Deus trabalhando e o descanso como a cessação da intervenção.

Quando se trabalha se cria, se interfere na realidade para transforma-la. E ao fazê-lo, nos aproximamos da imagem e semelhança com Deus.

No entanto o que dizer das definições usualmente feitas? Atividade, fazer barulho e movimento não necessariamente se traduz em trabalho.

Um Hamster em sua roda na gaiola, faz um bocado de atividade, no entanto, uma correria que o leva a lugar algum nem transforma realidade nenhuma, é só atividade.

Imagine que a esta roda se pudesse ligar um pequeno gerador que acendesse uma pequena lâmpada, digamos, para nossa leitura. Ai estaríamos utilizando, empregando, a força do hamster para gerar trabalho, transformação. No entanto, como esta energia gerada seria nossa, ele é só empregado.

O emprego é reprodução, cópia, repetição, rotina e é ser usado como força no trabalho de outro. Este outro tem sua realidade transformada, modificada. O empregado recebe os recursos para dali poder obter a segurança, energia e repouso necessários a continuar sendo... empregado. Por isso o empregado raramente descansa, ele usualmente repõe energia. Descansar não é chegar à exaustão e parar. Só o trabalho gera a possibilidade de efetivamente descansar no sentido bíblico. Descansar é poder parar de interferir para transformar e soberanamente dizer NÃO, saber perceber É O BASTANTE, e de ser LIVRE DE TER DE PRODUZIR. Por isso o dia do descanso é o dia da eternidade, da cessação da intervenção, de admirar e gozar de liberdade, de refrear a pulsão produtiva e experimentar o desfrute.

Na próxima vez que for descansar, trabalhar, ao emprego ou entrar em atividade, quem sabe você poderia lançar mão desta rápida reflexão para saber e experimentar o quanto sua vida reflete a imagem e semelhança de Deus, tanto na capacidade criadora e de intervenção, quanto na de se sentir em paz por não interferir. E que você possa assim gozar O DIA DA LIBERDADE. SHABAT.

domingo, 8 de junho de 2008

O fruto que você produz, de mim procede

Oséias 14:8b

Como é fácil se arrogar e se tornar um admirador de si mesmo. Como é fácil e tranqüilo o caminho da soberba.

Deus opera na vida da gente desde o momento do nascimento, a cada passo, a cada titubeio, a cada momento de desvio, ele inicia um processo de restauração. A gente resiste, às vezes cede, vai sendo transformado e, dependendo da dureza do coração, um dia acaba transformado.

Quando permitimos que essa transformação faça parte de nosso ser e permeie nossa vida, é natural que os frutos comecem a aparecer, que os resultados se tornem mais e mais evidentes. E mesmo nesse momento, quando a maturidade e a plenitude poderiam ter o seu lugar, a nossa estupidez nos faz voltar os olhos ao nosso próprio umbigo, e o vemos como um espelho, onde podemos nos admirar.

E a admiração logo vira deslumbre e, deslumbrados por nós mesmos, damos lugar à arrogância.

Percebo este processo uma vez após outra na minha vida, como é simples esquecer que o fruto que damos não veio de nós, como o fruto da árvore não existiria não fosse a abelha que poliniza, a água que rega, a fertilidade do solo e a incidência da luz. O fruto na árvore é um potencial, que depende da ação externa para se manifestar. Não é a árvore só, é ela no seu contexto, é ela dependente, quem apresenta o fruto. Desenraizada ela morre, sem água não há frutos, sem ação dos elementos e da natureza ao redor, ela se tornaria estéril e eventualmente morreria.

Assim sou eu, e como é fácil achar que o fruto vem de mim. E como é fácil esquecer que a soberba precede a queda, neste caso, não só do fruto, mas da árvore.

Somos o que somos, não tem jeito de querer superar a ambigüidade de uma vez para sempre, dependemos, mas tendemos a pensar que não. Cabe lembrar-se, aqui e ali, tentar manter a cabeça fora dos espelhos e dos umbigos, e quando cair, cair em si e saber que como aparece em Oséias, “Depois de dois dias ele nos dará vida novamente e ao terceiro dia nos restaurará – 6:2”, e esperar que Deus seja fiel, o que ele sempre é, ao contrário de nós. Que Deus derrame sua misericórdia sobre nós, e que não precisemos de tropeços para lembrarmos que nossos frutos são frutos de nossa dependência.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Um amigo que me constrói

Eu tenho um amigo, não um amigo qualquer, mas desses irmãos que, como diz um outro amigo, é “veia do coração”. O nome dele é Gustavo, um homem sensível e cuidadoso com seus mais preciosos bens: a família, a esposa, as filhas e os amigos. Um exemplo quando o tema é fidelidade, constância e lealdade.

Somos da mesma geração e como tais passamos por crises semelhantes. Também, como garotos tardios, insistimos em estar planejando o futuro, em ousar e a negar que vamos ficando mais velhos do que gostaríamos, mais limitados do que desejássemos.

Somos diferentes, eu e meu amigo, temos vidas que percorreram caminhos distintos, mas nos sentimos parte de uma unidade que transcende a gente.

Hoje ele me enviou um poema, desses que mandamos aos amigos que queremos bem. Um poema de Vinícius de Moraes, o poetinha. Falava meu amigo de sermos cristãos em construção, sobre sermos pegos em um pensamento de práxis, de sermos construídos enquanto construímos e de desta construção descobrirmos a quem dedicamos lealdade.

Fiquei assim tão tocado, pelo meu amigo e pelo poema que decidi compartilhar com meus outros amigos este momento.

Que na poesia do Vinícius, sejamos tocados e levados a pensar.

Obrigado Gustavo, por você ser o amigo que eu desejaria saber ser...

Claudio

O Operário Em Construção

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bonifácio e o meio ambiente

Hoje é dia do meio ambiente.

Engraçado chamar de “meio ambiente” aquilo que outrora chamávamos Natureza. A natureza é poética, se pode admirar, exaltar e deslumbra os olhos. Ninguém diz “Como é belo o meio ambiente” diante de cataratas ou de um verde deslumbrante; ou ninguém chama amorosamente de mãe, ao meio ambiente. Chamar a natureza de meio ambiente continua sendo uma forma sutil de colocar o homem no centro, e não como parte, pois é o meio que o circunda, que o serve, que pode ser, como diz a propaganda local do partido verde, “prejudicado em algum grau em prol do desenvolvimento”. Da natureza somos parte, somos um elo e um membro da família, fazemos parte da criação. Do meio ambiente somos donos, controlamos e administramos.

Como me lembra meu amigo Norbert Schmidt: “Poderíamos ir um passo além nesta reflexão uma vez que o conceito de natureza é também um conceito moderno. Somente na época romântica a natureza começou a adquirir “personalidade". O conceito de natureza substituiu um outro conceito já citado acima: o da criação”. Ao conceituar-se a natureza como obra da criação, apontamos para um criador, uma realidade além de si mesmo, logo algo que não surge do nada, mas da vontade de outro. Somente com o iluminismo o ocidente teve problemas com este “além de si mesmo”. A raiz da palavra natureza vem de nascer e do substantivo natura, significando nascimento, caráter, ser; só que a natureza não tem uma existência autóctone, mas deve sua existência a outro ser, nesse caso o criador, a quem se presta contas

Porém seja o que for, criação, natureza ou meio ambiente, são estas as vítimas de um processo de culto e adoração irresponsável. Adora-se ao dinheiro acima de tudo, para essa adoração cria-se uma religião e a religião do dinheiro é o consumo, e este tem sua veneranda entidade onipresente chamada de mercado. Adoramos e neles depositamos todas as esperanças, são eles que esperamos que nos tragam a paz, que nos dêem alegria, que dirigem o nosso trabalho e atividade. Em seus templos, chamados de Shopping Centers, exercemos o culto tresloucado de comprar e mostrar o poder do dinheiro. Neles encontramos tudo o que pode nos dar “paz”, lá as famílias caminham e passeiam, têm acesso aos bens que lhes trarão glória e prazer eternos (enquanto durem), inclusive neles encontramos o senso de comunidade, ainda que impessoal. Tudo parece perfeito no reino do mercado. Até os banheiros são lindos e limpos e a segurança total. A "adoração irresponsável" tem muito a ver com o fato que a natureza se tornou uma coisa sobre o qual não tem mais prestação de contas para um criador. Tudo ganhou vida em si, sacralidade em si. Tudo parece sólido e imutável.

Neste ponto se poderia aplicar a máxima de Marx “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado”, pois a solidez do sistema e do culto revelado se mostra frágil e suscetível, abaixo da superfície do Reino do mercado, da adoração do dinheiro e da religião do consumo os sinais são evidentes de que existe um enorme apodrecimento que não lhe dá a menor sustentabilidade. Assim como o carvalho sagrado de Thor, que parecia resistente e eterno mas que era podre e carcomido por dentro - o que foi percebido por Bonifácio que lhe desferiu um golpe certeiro e o lançou ao chão despedaçando-o em quatro pedaços mostrando sua podridão e levando muitos à fé no único Deus verdadeiro - precisamos de serenidade e visão para enxergar a podridão das divindades que nos iludem.

Hoje, no dia do meio ambiente, no dia da Natureza, creio ser bom colocar as coisas em perspectiva e lembrar que o mundo nos oferece deuses que parecem sólidos, mas que estão podres, que propõem felicidade, mas ao custo de destruir e apodrecer, de gerar lixo em quantidades inadministráveis, de jogar na atmosfera o carbono que Deus (sim Deus é quem cuida da natureza!) gastou milhões de anos para colocar a milhares de metros abaixo da superfície e tornar este um jardim habitável para o ser humano, e que nós lançamos de volta no ar em menos de cem anos de ganância. Precisamos ter olhos para ver onde dar com o machado nesse ídolo e jogá-lo ao chão. E podemos, quase diria devemos, orar e pedir a Deus que levante entre nós não somente ambientalistas da moda, mas desafiadores dos deuses que destroem a natureza e que, essencialmente, tornam inabitável o lugar que Deus escolheu para coroar a sua criação.

Que Deus tenha misericórdia de nós neste dia e que possamos, como Bonifácio, ter olhos para ver, coragem para empunhar o machado e força para desferir o golpe.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Confiar

Onde está a sabedoria? Assim pergunta Jó. Nas inúmeras elocubrações de controle da humanidade? No fundo do mar? Na tradição? No passado? Ou no futuro?
A sabedoria reside em uma relação que inclui duas características que se complementam: O temor e a confiança.
A primeira, que não se traduz em medo, mas na concepção de que se alguém possui as características necessárias para que, de algum modo, soframos conseqüências por estarmos desprotegidos, este é Deus. Só Ele nos faria mal ao nos abandonar, só o descuido dele poderia nos deixar famintos, só o descaso dele nos deixaria desprotegidos. No entanto, o seu imenso amor é a garantia de que nada disso poderá acontecer. Como mãe ele nos cuida, e da mesma forma nos alimenta e protege e em nada nos deixará faltar. Tememos, mas confiamos, sabemos que Ele é o único que pode nos fazer mal, mas guardamos ciência de sua misericórdia, amor e absoluto compromisso conosco, por amor de sua própria fidelidade, por que Ele É BOM. Temor e Confiança, a raiz da sabedoria.
O vídeo abaixo fala dessa relação e desse amor. Salmo 131

video
Clique aqui caso não consiga ver o vídeo

domingo, 1 de junho de 2008

A rocha e a Areia

Os textos de hoje do lecionario (deut. 11:26-21, salmos 31, Rom. 1:16-17; 3:22b-28 e Mat. 7:21-29) talvez estejam entre os mais fundamentais para distingüir entre duas maneiras de se relacionar com Deus e com a questão do discipulado, e podem gerar tanto a mesmice e a obviedade, quanto a possibilidade e a transformação, dependendo da maneira como os escolhamso interpretar.
O assunto central dos textos é A LEI.
Dentro de nosso mundo moderno e positivista, onde tudo é encarado de forma mecânica e funcionalista, falar em LEI é falar em regras, normas, em teorias, em absolutos e em super-simplificação da vida. No entanto, nossa tarefa diante dos textos lidos talvez seja tentar ultrapassar o senso comum contemporâneo e tentar desenvolver ouvidos para ouvir e olhos para ver.
Se mantivermos em mente o que desejamos para quem amamos, bem poderíamos admitir que seja que nossos filhos, amigos mais jovens, aprendizes e companheiros sejam prudentes, se virem bem com a vida, tenha resistência às intempéries e permaneçam por longo prazo como sólidas personalidades, não destruídas por qualquer tensão ou ansiedade. E todos os nossos esforços são feitos no sentido de que alcancemos este objetivo. Eu creio que dependendo de como abordemos a lei do senhor, teremos resultados diferentes.
Se entendermos a lei de forma cartesiana, mecanicista e positivista, considerando a vida um conjunto de verdades simples, fragmentadas, de aplicação legal e determinada, onde nossa tarefa seja a de seguir uma cartilha para o sucesso e controle na vida. Gastaremos nossa energia buscando descobrir essas leis, decorando-as e transmitindo-as autoritariamente, inclusive não admitindo o menor deslize em seu cumprimento. A partir daí criaremos estruturas rígidas e currículos, estabeleceremos especialistas e esperaremos a submissão e a uniformidade.
No entanto, como poderia ser diferente? O que nos diz o texto de Deuteronômio?
Gravem no coração e na mente: estes são locais orgânicos, não papel ou tábuas. A primeira coisa é tornar os princípios de Deus em ações medulares, como se diz em medicina, ou seja, parte de seus reflexos, um modo de agir natural. A descrição poética aqui feita sofreu uma interpretação literal por parte do judaísmo radical. Isso levou as pessoas a amarrarem pedacinhos de textos nos pulsos, na testa, na barra do vestido, a pregar porções da lei na porta de casa e em quadrinhos, a escrever a lei em tudo que era parte visível, esquecendo das invisíveis: o coração e a mente. E gerando assim o legalismo.
O texto segue poético e não literal: Amarrem-na nas mãos, ou seja, que em tudo que você fizer, naquilo que o faz mais ser humano (as mãos), se possa perceber a beleza e a profundidade da ação de Deus. Na testa: a parte mais visível do rosto, o que quer dizer que 'esteja na sua cara'. Que ao olhar pra você, uma criança possa, na hora, perceber e enxergar estes princípios. Quando estiverem no caminho:Que seja parte de sua conversa, da maneira como você fala, não de um momento devocional, ou de uma classe, mas que seja como seu respirar, presente da hora que você levanta à que você dorme, nas atividades do dia-a-dia, que seja ensino na vida e não sobre a vida. Isto demanda coerência - a coisa mais importante para deixar uma marca (ensinar – ensignare: marcar, deixar uma marca indelével). Nos batentes de sua porta: que estes princípios marquem um território. Mesmo que o mundo inteiro funcione de outra forma, que o território de sua casa, da porta pra dentro, seja como uma embaixada, onde as leis vigentes são de outra pátria e a não a do senso comum prevalente. E para que?
Vivemos em um mundo definitivamente mal e medíocre, frutos da ação do anti-reino de Deus. Nossos filhos e amigos enfrentarão tempestades e crises, e não subsistirão se sua vida for calcada em leis, em escolas dominicais, em moralismo e em obediência mecânica.
A rocha que nos sustenta não é a lei, a rocha é Deus e Deus não se explica em dez mandamentos, mas em uma relação complexa e duradoura de fidelidade e amor. Como diz o texto de Romanos, isto quer dizer então que a lei é inválida? De modo algum!
O que isso quer dizer é que a graça é nosso único recurso para nos relacionarmos com Deus, e que reduzir esta relação a regras nos deixa mais pobres. Graça é construir uma vida encarada em sua complexidade e profundidade, intimamente conectada com Deus, sustentada na existência e resistente às tempestades da vida. Na verdade, legalismo e regrinhas são areia, são uma super-simplificação de um alicerce que, infelizmente - assim nos mostra a vida e a prática - não resiste ao menor solavanco.
Uma vida sólida se constrói no caminho, na consciência da relação, na coerência do dia-a-dia, e na dependência da graça. O foco não está em quem é discipulado, educado ou ensinado, mas em quem ensina e educa, e desse demanda-se coerência, conhecimento e fidelidade. Desses espera-se que vivam vidas tão atraentes e de tal forma eficientes, que qualquer um que veja se sinta atraído e tenha como desejo imitar.
Que Deus tenha misericórdia de nós.