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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Consertar ou Concertar?!?

Adoro diálogos com dicionários,os tenho desde menino, e tiro deles muito contentamento. Me lembro de ser sua leitura uma das coisas que me dava prazer quando eu era pequeno e de como descobrir as palavras me proporcionava alegria.

Um dia desses, inspirado por algumas imagens oriundas da pesquisa de uma amiga com música, resolvi brincar com o Houaiss, meu dicionário predileto, e manter com ele um diálogo, assim como quem conversa com um amigo.

Com o desconcerto do planeta e seus habitantes, me pus a pensar: Do que precisa este mundo? Conserto, ou concerto?

E descubro, para minha surpresa, que até o final do século XIX, a língua portuguesa só registra concertar com c. Consertar com s, portanto, é uma especialização recente, que faz com que diversas das acepções dos dois verbos se mesclem.

Quem sabe mesmo se ao concertar a gente não esteja mesmo consertando alguma coisa que se quebrou em nossa existência coletiva... Porque agrupado em concertar, se encontram as acepções que se aproximam de 'harmonizar, pôr em acordo', e em consertar, as mais correlacionadas com 'reparar, remendar'. Uma buscando a outra, uma completando a outra...

Muita gente acha que este mundo não tem mais jeito nem salvação, já outros mantém a esperança de que seja possível. Como a salvação não é mesmo ir para o céu, mas colocar o separado junto de novo – do grego soteros, de onde vem nossa palavra sutura - ao concertar, colocamos em harmonia o que se perdeu e damos à imagem quebrada em nós a chance da reparação, e em certo sentido antecipamos a harmonia e a beleza de levar o outro em conta e viver em um mundo muito diferente desta ruptura geral na qual vivemos ao nos tornarmos o estranho paradoxo de podermos ser um ainda que sendo cada um.

Isso é possível porque concertar como verbo é transitivo direto, transitivo indireto e pronominal e sempre é pôr-se, ou estar, em harmonia, em acordo; harmonizar, acordar, conciliar. Mas só pode fazer isso ao ser bitransitivo, pois que deve entrar em concerto, em 'acordo comum'; deliberar em conjunto, tramar de comum acordo; pactuar, combinar, concordar... para então surpreender.

Mas não faz isso em secreto, mas em cima do palco e na porta de entrada como quem "conserta a entrada com uma guirlanda de flores", que todos sentem e apreciam, e chama atenção, mostra o belo ao colocar enfeites; ornar, enfeitar, ornamentar.. todos sinônimos esquecidos da concertação.

E não fica só no estético o ato de concertar, senão que no prático, acertando os detalhes do palco da vida, um sabendo olhar pro outro para juntos fazer a instalação concertada de algo maior; construir, erguer, montar, armar.

Mas até chegar lá demanda treinar a execução ; preparar, ensaiar, ensaiar e ensaiar. Até concertar.

Mas quando concertar era latim, concertare queria dizer combater, lutar; rivalizar, porfiar; discutir, disputar, argumentar, e me ponho a pensar ... mas como???? Então sou lembrado de que quem acerta, em um certame, entra nele para terminar o que ficou mal resolvido, na medida em que qualquer luta visa a um ajuste, a uma ordem, buscando concertar algo que se achava confuso, ou injusto ou mal.

Assim, se este mundo me deixa desconcertado, sinto que preciso me armar e ir para a luta, e que não vão ser outras armas que me trarão a ordem pela qual clama a minha alma, a não ser um belo concerto, uma harmonia de vozes, a combinação dos sons e o enlevo das notas. Lutar com arte, com acordo, com harmonia, com diálogo, escolhendo o inusitado para por um fim nesta questão.

(para Tina e Helma)

domingo, 8 de junho de 2008

O fruto que você produz, de mim procede

Oséias 14:8b

Como é fácil se arrogar e se tornar um admirador de si mesmo. Como é fácil e tranqüilo o caminho da soberba.

Deus opera na vida da gente desde o momento do nascimento, a cada passo, a cada titubeio, a cada momento de desvio, ele inicia um processo de restauração. A gente resiste, às vezes cede, vai sendo transformado e, dependendo da dureza do coração, um dia acaba transformado.

Quando permitimos que essa transformação faça parte de nosso ser e permeie nossa vida, é natural que os frutos comecem a aparecer, que os resultados se tornem mais e mais evidentes. E mesmo nesse momento, quando a maturidade e a plenitude poderiam ter o seu lugar, a nossa estupidez nos faz voltar os olhos ao nosso próprio umbigo, e o vemos como um espelho, onde podemos nos admirar.

E a admiração logo vira deslumbre e, deslumbrados por nós mesmos, damos lugar à arrogância.

Percebo este processo uma vez após outra na minha vida, como é simples esquecer que o fruto que damos não veio de nós, como o fruto da árvore não existiria não fosse a abelha que poliniza, a água que rega, a fertilidade do solo e a incidência da luz. O fruto na árvore é um potencial, que depende da ação externa para se manifestar. Não é a árvore só, é ela no seu contexto, é ela dependente, quem apresenta o fruto. Desenraizada ela morre, sem água não há frutos, sem ação dos elementos e da natureza ao redor, ela se tornaria estéril e eventualmente morreria.

Assim sou eu, e como é fácil achar que o fruto vem de mim. E como é fácil esquecer que a soberba precede a queda, neste caso, não só do fruto, mas da árvore.

Somos o que somos, não tem jeito de querer superar a ambigüidade de uma vez para sempre, dependemos, mas tendemos a pensar que não. Cabe lembrar-se, aqui e ali, tentar manter a cabeça fora dos espelhos e dos umbigos, e quando cair, cair em si e saber que como aparece em Oséias, “Depois de dois dias ele nos dará vida novamente e ao terceiro dia nos restaurará – 6:2”, e esperar que Deus seja fiel, o que ele sempre é, ao contrário de nós. Que Deus derrame sua misericórdia sobre nós, e que não precisemos de tropeços para lembrarmos que nossos frutos são frutos de nossa dependência.