segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Arrogância de Cancun

O texto abaixo foi traduzido do original que pode ser lido aqui e expressa de maneira muito clara as agendas com as quais estou pessoalmente envolvido. Ler Gustavo Esteva, a quem considero um mestre querido e um amigo oriundo dos contatos durante minhas pesquisas, é um privilégio especial. Inseri links em cada citação caso o leitor deseje aprofundar seu conhecimento sobre os temas citados.

Gustavo Esteva*

The Guardian

As lições deste fraco acordo climático? Os Governos tem brincado de Deus e falharam. Agora é com os ativistas.

No esforço de proteger o planeta de nós mesmos… As discussões de alto nível em Cancún eram nossa última chance ... e elas falharam. Mas podemos aprender com este triste episódio: devemos parar de pedir aos governos e às organizações internacionais soluções que eles não querem - e não podem - implementar. E devemos parar de fingir ser Deus pensando que podemos “consertar” o planeta.

Dezoito anos atrás, a pressão do movimento ambiental obrigou a ONU a convocar a Cúpula da Terra (RIO 92): 120 chefes de Estado, 8 mil funcionários e inúmeros ambientalistas se reuniram no Rio; e uma imagem da orquestra tocando enquanto o Titanic afundava inevitavelmente vem à mente.

A conferência, como a Ecologist relatou na época, apenas reforçou a mitologia predominante e destacou os poderosos investimentos disfarçados trabalhando contra uma solução. Com efeito, os cordeiros foram colocados para cuidarem dos lobos. “Após chegarem à conferência, cada caminho tomou um rumo para baixo”, observou o líder ambientalista Juan José Consejo. Ele alertou os ambientalista para o fato de que sua causa havia sido cooptada e que as políticas e ações tomadas em nome da ecologia eram de fato muito danosas ao ambiente.

Mas ainda não aprendemos o suficiente. Continuamos olhando para os poderosos para resolver as coisas. A conferência de Kyoto, em 1997, foi um passo tímido na direção certa, mas as promessas nunca foram cumpridas. Este ano, na Conferência do Povo, em Cochabamba, Bolívia, propostas interessantes foram apresentadas, mas Cancún não levou isso em consideração, e o fraco acordo, eventualmente remendado, não conseguiu superar o fracasso do ano passado em Copenhague. Conforme observou a Via Campesina, o movimento camponês internacional: chegar a nenhum acordo teria sido bem melhor do que um assim tão pobre.

Enquanto isso, o Fórum Internacional de Justiça Climática, convocado por centenas de organizações de vários países, fez outra declaração de Cancún, alternativa e mais valiosa. Com o slogan “Vamos mudar o sistema, não o planeta”, a declaração revelou a verdadeira natureza contra-produtiva das propostas oficiais, que estavam presas no “mercado ambiental”. A declaração defende que deveríamos abandonar o desenvolvimentismo, estabelecer limites, concentrar-nos em espaços locais, e regenerar tradições válidas. Tudo isso, entretanto, cai na armadilha política e intelectual da mentalidade dominante por ainda se pendurar nas instituições e em seus slogans abstratos.

Afirmar ou negar a mudança climática pressupõe que nós compreendemos bem o nosso planeta, Que sabemos como o mesmo reage – tanto agora como nos próximos 100 anos – e que nós possuímos a tecnologia apropriada para o consertar. Isso é pura e simplesmente sem sentido, e intoleravelmente arrogante.

Continuar depositando nossa confiança e esperança em instituições que esperamos que façam as coisas certas vai contra toda nossa experiência e foca a nossa energia no lugar errado. Sim, nós ainda precisamos lutar algumas batalhas institucionais. Por exemplo, nós podemos celebrar o acordo recém assinado em Nagoya, onde 193 membros das Nações Unidas criaram uma moratória de fato para projetos de geoengenharia, condenando qualquer tentativa de alterar o termostato do planeta. Mas devemos entrar em tais batalhas sem rendermos nossa vontade aos administradores governamentais do capital, que continuarão protegendo os principais causadores da destruição ambiental.

Todos os governos, mesmo os mais majestosos, são compostos de mortais comuns, presos em labirintos burocráticos e brigando contra interesses disfarçados que atam suas mãos, cabeças e ideais. Mesmo se Evo Morales governasse o planeta inteiro nós não seríamos capazes de consertar os atuais problemas ambientais.

Precisamos olhar para baixo e para a esquerda, como dizem os zapatistas do México: para as pessoas, e para o que nós mesmos podemos fazer. Por exemplo, parar de produzir lixo em vez de reciclá-lo. Isto requer uma série de coisas, de rejeitar sacolas plásticas e embrulhos até abandonar radicalmente o uso do vaso sanitário com descarga – um dos hábitos mais destrutivos do mundo, absorvendo 40% da água disponível para o consumo doméstico e contaminando tudo que passar por seu caminho. E, em vez do excesso de uso de veículos poluentes, vamos recuperar a auto-mobilidade, a pé ou em bicicletas. Assim como nos esforçamos para comer e beber de forma sensata, vamos viver nossas vidas de uma maneira diferente.

Se definirmos as questões nesses termos, lidar com elas estará em nossas mãos, não nas mãos daquelas criaturas globais institucionais que nunca farão o que é necessário. ELAS NÃO PODEM FINGIR SER DEUS, NÃO IMPORTA O QUANTO ELAS TENTEM.

O tempo veio para mudar o sistema, não o planeta. Só depende de nós, não daqueles que ganham status e renda do sistema. Como o escritor brasileiro Leonardo Boff observou, ativistas deixaram Cancún muito decepcionados com o resultado, mas estavam determinados a finalmente tomar o controle de toda a questão e a viverem suas vidas de seu modo, não da maneira ditada pelo mercado ou pelo Estado.

* Gustavo Esteva é um amigo, um intelectual dos mais brilhantes que o México já produziu, desinstitucionalizado, fundador da Universidade da Terra, em Oaxaca, México. Foi estudante e depois amigo de Ivan Illich e uma das mentes mais influentes no pensamento anti-sistêmico.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Entrevista Sobre Urbicultura

Primeira parte


Segunda parte