quarta-feira, 13 de maio de 2009

Lealdade.... a Quem?


Uma das coisas que tenho como fundamentais em minha vida é a compreensão do que vem a ser isto de tornar-se um seguidor de Jesus. A mudança que está implícita nesta decisão não é de natureza filosófica ou mesmo religiosa e reduzir este processo a isso - ainda que estes componentes até possam existir como parte - é perder o ponto central desse seguimento.

Tornar-se um seguidor de Jesus tem a ver com algo muito mais implicador e comprometedor do que uma mera mudança religiosa, ou assunção de uma nova filosofia de vida. A mudança que se dá, e à qual somos convidados e convidadas por Jesus, é traduzida por um outro definidor: uma transferência de plataforma de lealdade, uma mudança para além do comportamento ou da crença, uma ruptura com lealdades assumidas previamente e o comprometimento da vida com outra lealdade, que começa no coração, a partir dali.

Esse processo, por esta definição, não acontece de uma vez por todas, mas passa a ter um caráter diário e dinâmico, seja por não estar definido por nenhum conteúdo pré-determinado e consolidado em uma série de regras escritas, seja por permitir o aprofundamento constante e o conhecimento em níveis cada vez mais simples e mais complexos ou seja por ser fruto de uma relação e não de uma declaração.

Quando me refiro à lealdade podemos ver que esta característica nos é requerida por vários dos atores com os quais pisamos este palco da vida. No tempo presente, os mais óbvios são o Estado e o Mercado,

que vem se degladiando de forma crescente pela hegemonia das relações de lealdade em nosso coração nos últimos 500 anos. No entanto, laços de família, de cosangüinidade, raciais, sexuais, profissionais, empresariais, religiosos, filosóficos, políticos e funcionais jogam este mesmo jogo de busca de hegemonia sobre noss vida, normalmente em papéis mais secundários, ainda que presentes e bem visíveis em nosso dia-a-dia. Tudo luta pela lealdade de nosso coração, e é fácil verificar onde está a de cada um, pela observação de nossas atitudes, alianças e gasto de tempo. Basta um pouco de honestidade para se olhar no espelho.

No caso do Estado, a pátria, invenção muito recente, reclama nossa lealdade e a capacidade de dedicarmo-nos a “deveres cívicos” e “direitos reconhecidos”, como o de matar,prender, taxar, votar, denunciar e se deixar controlar por leis nem sempre do interesse das pessoas ou das relações. O mercado , hoje o usurpador mais presente, exige de nossa vida horas, dias e anos de preparação para servi-lo, impõe sobre nós valores que são destruidores de pessoas e de convívios através da competitividade, da velocidade e das poucas horas de parada. Estabelece relações permitidas, proibidas, interessantes e desinteressantes, destrói famílias, usurpa maternidades e corrói o companheirismo.

Assim como no antigo Império Romano, ambos e todos os agentes citados acima admitem qualquer postura que um indivíduo tome, desde que essas não comprometam o central para para o sistema; aceitam qualquer fé, desde que não interfira na prática de ninguém nem questionem os sacrossantos princípios como o consumo, o crédito, a delegação representativa, a subserviência a normas impostas, a escolarização compulsória, a apatia diante do mal.

Assim como no  já citado Império Romano, aparece o Cristo que diz ontem como hoje: “Me segue”. E com essa simples frase, confronta o sistema, desafia a lealdade incontestável, relativiza o absoluto. Ao nos chamar para se tornar seus seguidores, copiar seus passos e assumir sua vida, chama também a uma nova lealdade que implica em mudanças de hábito, modo de pensar e de agir, e nos coloca em outro campo, oposto e alternativo ao que ai está.

Como forma de exemplificar o que significa isso para mim, costumo responder aos questionamentos que me fazem sobre porque faço ou deixo de fazer determinadas coisas com uma frase comum: “Porque no meu país é assim que a gente faz”. 

Assim, eu prefiro a bicicleta, por que no meu país ninguém usa motor a combustão para se locomover, lá as pessoas andam, e se cumprimentam, adoram um papo e passeiam todo fim de tarde no jardim com o Rei do lugar. Além disso, lá a gente não come bichos, pois o leão e o cordeiro são amigos e brincam um com o outro, e mesmo as crianças de colo podem brincar com texugos e outros animais aqui chamados de perigosos, e todos nós cultivamos o princípio de não derramar sangue e preferir buscar nas plantas nossa vida, nossa nutrição e saúde. Lá no meu país, as portas nunca se fecham, ficam sempre abertas, como diria Marisa Monte, pra sorte entrar. Comemos pão e vinho para celebrar numa mesa enorme a alegria da vida que tem sempre a vitória final.

Lá no meu país, assim como em Pasargada, somos todos amigos do Rei, que assim sendo nos chama de irmãos. Sentamos debaixo de uma árvore Viva e lá batemos papos de sabedoria sobre o bem, esquecendo do mal. E também lá não se vota pois o sistema é uma monarquia dirigida por juízes que ganharam esta função por serem retos, comprometidos com a verdade e a integridade, e na verdade, todos no meu país exercem tal função.

Lá no meu país, as ruas são de ouro e as maçanetas são de diamante, e ... não, não pense que é frescura de burguês, é por que lá essas coisas não são valores, só servem mesmo pra asfaltar e para complementar as casas que guardam nosso maior, único e verdadeiro tesouro: As pessoas.

Lá no meu país, ao qual sou completamente leal, não tem nenhum templo, por que a presença de Deus está em todos os lugares, e o verdadeiro lugar de adoração se constrói a cada encontro de corações leais e sinceros ao nosso Deus. A vida diária é um culto só, uma celebração de vida, pão fresco e vinho.

Ainda lá no meu país, ninguém toma antidepressivo, pois que todas as lágrimas são enxugadas. Também lá, os velhos tem um lugar especial, e nós os chamamos de anciãos. Eles nos dirigem em nossas atividades e relações com nosso Rei. Outra coisa é que os mais desprezados nos mais diversos países, emigraram para lá – alguns prematuramente - todos os mártires, todas as mulheres que sofrem injustiça, todas as crianças usurpadas, e lá encontraram plena cidadania, sendo que a cada um são dadas vestes brancas e um lugar de destaque.

Lá no meu país... lá onde está o meu tesouro... lá onde mora minha lealdade.

E ai, enquanto estou aqui neste país, ajo como embaixador do meu, cumprindo minha vida de um jeitão que aqui acham esquisito, e apesar de limitado e submetido a normas locais, sempre que pressionado, sei a quem pertence minha lealdade, então coloco limites. Tento não incomodar muito, e viver em paz, fazendo tudo o que não rompa com os princípios a que sou leal no meu país. E à medida que vou percebendo que algo deste país aqui me faz agir de forma diferente do que agiria no meu país, busco mudar o modo de pensar, re-aprender como se faz lá e daí mudo, inverto e saio por ai seguindo o jeitão do meu país.

De vez em quando pareço esquisito, como é comum com aqueles que falam outro sotaque, usam roupas típicas ou comem comidas de suas terras. Mas na medida que outros cidadãos de lá se encontram aqui, a gente se reúne em uma espécie de CTG à nossa moda, onde celebramos nossas tradições e identidade nacional.

E aguardamos... até o dia em que, ou nosso Rei em visita por aqui nos chamar de volta ou vier retomar as partes que lhe pertencem e que lhe foram usurpadas.

Até lá permaneço leal a Ele, buscando segui-lo e me arriscando a ser tomado por criminoso ou refratário cada vez que questiono, desobedeço a leis ou valores locais ou faço algo que só faz sentido mesmo em país como o meu - e nenhum aqui. Mandado pelo meu Rei, a quem celebro,  espero enquanto nesse exílio longo, mas cheio de compromissos com o futuro, o dia de viver para sempre por lá.