
Uma das coisas que tenho como fundamentais em minha vida é a compreensão do que vem a ser isto de tornar-se um seguidor de Jesus. A mudança que está implícita nesta decisão não é de natureza filosófica ou mesmo religiosa e reduzir este processo a isso - ainda que estes componentes até possam existir como parte - é perder o ponto central desse seguimento.
Tornar-se um seguidor de Jesus tem a ver com algo muito mais implicador e comprometedor do que uma mera mudança religiosa, ou assunção de uma nova filosofia de vida. A mudança que se dá, e à qual somos convidados e convidadas por Jesus, é traduzida por um outro definidor: uma transferência de plataforma de lealdade, uma mudança para além do comportamento ou da crença, uma ruptura com lealdades assumidas previamente e o comprometimento da vida com outra lealdade, que começa no coração, a partir dali.
Esse processo, por esta definição, não acontece de uma vez por todas, mas passa a ter um caráter diário e dinâmico, seja por não estar definido por nenhum conteúdo pré-determinado e consolidado em uma série de regras escritas, seja por permitir o aprofundamento constante e o conhecimento em níveis cada vez mais simples e mais complexos ou seja por ser fruto de uma relação e não de uma declaração.
Quando me refiro à lealdade podemos ver que esta característica nos é requerida por vários dos atores com os quais pisamos este palco da vida. No tempo presente, os mais óbvios são o Estado e o Mercado,

No caso do Estado, a pátria, invenção muito recente, reclama nossa lealdade e a capacidade de dedicarmo-nos a “deveres cívicos” e “direitos reconhecidos”, como o de matar,prender, taxar, votar, denunciar e se deixar controlar por leis nem sempre do interesse das pessoas ou das relações. O mercado , hoje o usurpador mais presente, exige de nossa vida horas, dias e anos de preparação para servi-lo, impõe sobre nós valores que são destruidores de pessoas e de convívios através da competitividade, da velocidade e das poucas horas de parada. Estabelece relações permitidas, proibidas, interessantes e desinteressantes, destrói famílias, usurpa maternidades e corrói o companheirismo.
Assim como no antigo Império Romano, ambos e todos os agentes citados acima admitem qualquer postura que um indivíduo tome, desde que essas não comprometam o central para para o sistema; aceitam qualquer fé, desde que não interfira na prática de ninguém nem questionem os sacrossantos princípios como o consumo, o crédito, a delegação representativa, a subserviência a normas impostas, a escolarização compulsória, a apatia diante do mal.
Assim como no já citado Império Romano, aparece o Cristo que diz ontem como hoje: “Me segue”. E com essa simples frase, confronta o sistema, desafia a lealdade incontestável, relativiza o absoluto. Ao nos chamar para se tornar seus seguidores, copiar seus passos e assumir sua vida, chama também a uma nova lealdade que implica em mudanças de hábito, modo de pensar e de agir, e nos coloca em outro campo, oposto e alternativo ao que ai está.
Como forma de exemplificar o que significa isso para mim, costumo responder aos questionamentos que me fazem sobre porque faço ou deixo de fazer determinadas coisas com uma frase comum: “Porque no meu país é assim que a gente faz”.
Assim, eu prefiro a bicicleta, por que no meu país ninguém usa motor a combustão para se locomover, lá as pessoas andam, e se cumprimentam, adoram um papo e passeiam todo fim de tarde no jardim com o Rei do lugar. Além disso, lá a gente não come bichos, pois o leão e o cordeiro são amigos e brincam um com o outro, e mesmo as crianças de colo podem brincar com texugos e outros animais aqui chamados de perigosos, e todos nós cultivamos o princípio de não derramar sangue e preferir buscar nas plantas nossa vida, nossa nutrição e saúde. Lá no meu país, as portas nunca se fecham, ficam sempre abertas, como diria Marisa Monte, pra sorte entrar. Comemos pão e vinho para celebrar numa mesa enorme a alegria da vida que tem sempre a vitória final.
Lá no meu país, assim como em Pasargada, somos todos amigos do Rei, que assim sendo nos chama de irmãos. Sentamos debaixo de uma árvore Viva e lá batemos papos de sabedoria sobre o bem, esquecendo do mal. E também lá não se vota pois o sistema é uma monarquia dirigida por juízes que ganharam esta função por serem retos, comprometidos com a verdade e a integridade, e na verdade, todos no meu país exercem tal função.
Lá no meu país, as ruas são de ouro e as maçanetas são de diamante, e ... não, não pense que é frescura de burguês, é por que lá essas coisas não são valores, só servem mesmo pra asfaltar e para complementar as casas que guardam nosso maior, único e verdadeiro tesouro: As pessoas.
Lá no meu país, ao qual sou completamente leal, não tem nenhum templo, por que a presença de Deus está em todos os lugares, e o verdadeiro lugar de adoração se constrói a cada encontro de corações leais e sinceros ao nosso Deus. A vida diária é um culto só, uma celebração de vida, pão fresco e vinho.
Ainda lá no meu país, ninguém toma antidepressivo, pois que todas as lágrimas são enxugadas. Também lá, os velhos tem um lugar especial, e nós os chamamos de anciãos. Eles nos dirigem em nossas atividades e relações com nosso Rei. Outra coisa é que os mais desprezados nos mais diversos países, emigraram para lá – alguns prematuramente - todos os mártires, todas as mulheres que sofrem injustiça, todas as crianças usurpadas, e lá encontraram plena cidadania, sendo que a cada um são dadas vestes brancas e um lugar de destaque.
Lá no meu país... lá onde está o meu tesouro... lá onde mora minha lealdade.
E ai, enquanto estou aqui neste país, ajo como embaixador do meu, cumprindo minha vida de um jeitão que aqui acham esquisito, e apesar de limitado e submetido a normas locais, sempre que pressionado, sei a quem pertence minha lealdade, então coloco limites. Tento não incomodar muito, e viver em paz, fazendo tudo o que não rompa com os princípios a que sou leal no meu país. E à medida que vou percebendo que algo deste país aqui me faz agir de forma diferente do que agiria no meu país, busco mudar o modo de pensar, re-aprender como se faz lá e daí mudo, inverto e saio por ai seguindo o jeitão do meu país.
De vez em quando pareço esquisito, como é comum com aqueles que falam outro sotaque, usam roupas típicas ou comem comidas de suas terras. Mas na medida que outros cidadãos de lá se encontram aqui, a gente se reúne em uma espécie de CTG à nossa moda, onde celebramos nossas tradições e identidade nacional.
E aguardamos... até o dia em que, ou nosso Rei em visita por aqui nos chamar de volta ou vier retomar as partes que lhe pertencem e que lhe foram usurpadas.
Até lá permaneço leal a Ele, buscando segui-lo e me arriscando a ser tomado por criminoso ou refratário cada vez que questiono, desobedeço a leis ou valores locais ou faço algo que só faz sentido mesmo em país como o meu - e nenhum aqui. Mandado pelo meu Rei, a quem celebro, espero enquanto nesse exílio longo, mas cheio de compromissos com o futuro, o dia de viver para sempre por lá.